O presente trabalho analisa as contribuições do bibliófilo Diogo Barbosa Machado para a formação e consolidação do acervo da Biblioteca Nacional, compreendendo esse processo como parte da constituição de um regime de informação no Brasil oitocentista. Parte-se do pressuposto de que a organização e incorporação de coleções não são práticas neutras, mas processos atravessados por relações de poder, disputas simbólicas e projetos políticos de construção nacional. Nesse sentido, a formação do acervo da Biblioteca Nacional é interpretada como dimensão estratégica na consolidação de um imaginário nacional e na institucionalização de determinadas narrativas históricas hegemônicas.
A justificativa da pesquisa reside na necessidade de tensionar abordagens tradicionalmente descritivas sobre formação de acervos, inserindo-as em uma perspectiva crítica da Ciência da Informação. Ao articular organização do conhecimento, ideologia e hegemonia, o estudo contribui para ampliar o debate sobre o papel das instituições de memória na produção de valor simbólico e na consolidação de regimes informacionais. Além disso, o trabalho dialoga com a Economia Política da Comunicação ao evidenciar que a informação, enquanto recurso estratégico, integra disputas estruturais vinculadas à formação do Estado e à legitimação de projetos culturais dominantes que adotam específicos sistemas classificatórios.
O problema central da pesquisa consiste em compreender de que maneira a incorporação da coleção de Diogo Barbosa Machado participou da constituição de um regime de informação que contribuiu para a consolidação de uma hegemonia cultural no Brasil que atravessou séculos. Como objetivo geral, busca-se analisar criticamente a formação do acervo da Biblioteca Nacional à luz das relações entre informação, poder e identidade nacional. Especificamente, pretende-se: (1) examinar o contexto histórico e político da incorporação da coleção; (2) identificar os critérios de organização, classificação e legitimação do acervo; e (3) discutir os efeitos simbólicos dessa coleção para a consolidação de uma específica narrativa de nacionalidade.
Metodologicamente, a pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise histórico-documental. O marco teórico articula a noção de hegemonia de Gramsci (1999), capital simbólico e campo cultural de Bourdieu (2012), regime de informação de Gómez (2002) e organização do conhecimento e ideologia de Frohmann (2004), dialogando com a tradição crítica da Economia Política da Comunicação. Os procedimentos metodológicos envolvem levantamento documental sobre a formação do acervo, análise interpretativa das condições históricas de incorporação da coleção e exame crítico das implicações ideológicas da organização desse patrimônio bibliográfico, documental e cultural.
Como resultados iniciais, esta pesquisa sustenta a premissa de que a coleção de Diogo Barbosa Machado desempenhou papel estruturante na consolidação de um regime de informação voltado à legitimação de uma memória oficial e à afirmação de um específico projeto de identidade nacional. Ademais, a Biblioteca Nacional, operou como instância de institucionalização deste conhecimento e de um determinado sistema de classificação, convertendo o acervo em capital simbólico e contribuindo para a produção de hegemonia cultural construtora da narrativa de nacionalidade brasileira ainda hoje vigente. Ressalta-se, por fim, que a constituição do patrimônio bibliográfico nacional deve ser compreendida como prática política de organização do conhecimento, inserida em disputas mais amplas sobre memória, poder e identidade.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)